sábado, dezembro 03, 2016

Summer in the city


Edward Hopper, Summer in the city

Acordou mais tarde do que planeara. A luz entrava, farta, através das janelas altas. Ele continuava a dormir, alheio ao dia e ao seu despertar. Levantou-se e tomou um banho rápido. Executou todos os gestos, procurando fazer o menos ruído possível. Regressou ao quarto, vestiu-se e reparou que ele continuava entregue a um sono pesado, deitado de barriga para baixo, nu, sobre o lençol.
Sentou-se na borda da cama. Era uma cama de solteiro, sem graça, como o quarto, que parecia reflectir a frieza e o sentido sobretudo prático de quem o habitava.
A noite não fora, como acontecia há algum tempo, de amor. Talvez tão só o cumprir de uma rotina a que ambos se tinham habituado e que não quebravam por inércia.
Conheceram-se num fim de tarde, quando ambos entraram num café para fugir da chuva que àquela hora desabava impiedosa sobre o mundo. Sentaram-se em mesas próximas. Ela abordou-o para lhe pedir lume. Por delicadeza e por uma espécie de gratidão, foi depois respondendo aos comentários dele sobre as contrariedades do tempo.
Rapidamente, os encontros, primeiro falsamente casuais, depois combinados, cederam lugar ao encontro dos corpos. Deixaram de frequentar o café, acordando encontrar-se no quarto dele, quase sempre depois do trabalho. Para ele era fácil. Ela, em contrapartida, teve de se inscrever num curso de línguas, para justificar os dias em que chegava a casa depois da hora habitual. Conseguira, com a cumplicidade de uma amiga, ficar com ele algumas noites.
Apesar de ela ser mais velha, o interesse dele lisonjeou-a. Sentiu-se novamente mulher. Esqueceu as rugas, algumas cabelos brancos que começavam a despontar na sua cabeleira escura, os quilos que acumulara com a idade. Percebeu que estava pronta para voltar a amar e a ser amada. 
Nos primeiros tempos, viveu num enlevo que lhe suprimiu o discernimento. Chegou a acreditar que era amada. Desculpava-lhe as desatenções, a falta de pequenos gestos de delicadeza. Nunca,em meses, ele tivera a gentileza de a surpreender com com o que quer que fosse. Não eram os bens que lhe interessavam. Dava valor a pequenos gestos. Bastavam uma flor, um livro, um postal para se sentir especial e para perceber que alguém pensara nela.
O tempo curou-lhe a cegueira, trazendo-lhe a certeza do egoísmo dele. Sentiu-se muitas vezes usada, humilhada até, mas temia sentir-lhe a falta, por isso adiava a partida.
Voltou-se e confirmou que ele dormia ainda. Levantou-se, pegou no casaco e na mala e, como a mulher da canção, «saiu para a rua, decidida». Fora, experimentou o calor do sol sobre a pele e, naquele instante, soube que renascia.

deep, 02 e 03 de Novembro de 2016

(Texto sujeito a alterações.)


sexta-feira, dezembro 02, 2016

Punir ou não punir?


(Imagem da net)

Não sou, por natureza, vingativa. Tenho, inclusive, dificuldade em "dar bofetadas com luva de pelica". Algumas vezes, por preguiça, outras porque a indiferença  me parece a atitude mais acertada. A vingança significa sempre que nos importamos, é um sinal de que o outro, de certa forma, nos domina.
Há, contudo, situações que me deixam a pensar se não será necessário haver uma acção pedagógica para não haja repetições e para que a impunidade não leve a melhor.

Na segunda-feira, à hora de almoço, quando me aproximei do carro, na companhia de uma amiga, a quem fiquei de levar a casa, percebi que um dos pneus estava completamente vazio. Fiquei sem saber o que fazer, uma vez que a minha relação com o carro passa quase exclusivamente pela condução.
A minha amiga, entretanto, ligou ao marido, que veio, rapidamente, ao nosso encontro, para nos socorrer. Percebi, no dia seguinte, quando dispus de algum tempo para passar numa recauchutagem, que não tinha sido furo, mas que alguém tinha esvaziado o pneu. A minha suspeita de que teria havido "crime" ganhou forma de certeza.

Na quarta-feira, um dos autores (porque ainda não tive oportunidade de apurar se houve mais), procurou-me para confessar que fora ele quem esvaziara o pneu. Espantei-me com a minha calma. Perguntei-lhe por que cometera tal acto e se tem noção do transtorno que me causou. Disse-me que tinha sido um ato de vingança, por eu ter actuado numa situação em que não poderia deixar de o fazer e que o envolvia.

Nesta ocorrência, chocam-me o espírito vingativo e a maldade, mas choca-me mais ainda perceber que o autor só se retractou por medo, uma vez que lhe foi dito que tinha sido visto, e não por arrependimento.

terça-feira, novembro 29, 2016

Exercício de escrita


Edward Hopper, "Automat" (1927)

O dia revelara-se soalheiro e ameno. Contudo, a noite chegara fria e quase sem aviso, por isso Cordélia, que passara a tarde de loja em loja, na busca ansiosa dos últimos presentes de Natal, decidiu refugiar-se no primeiro café que encontrou. O espaço, que estava àquela hora um pouco vazio, agradou-lhe.
Sentou-se, pediu um café e, enquanto bebia o líquido quente e amargo, em sorvos lentos, permaneceu quieta, absorta em pensamentos. O ambiente estava aquecido, mas o frio entrara de tal modo em si que, durante largos minutos, não conseguiu desfazer-se do sobretudo verde e do chapéu, nem mesmo da luva da mão esquerda. Apesar de estar já um pouco fora de moda, gosta deste seu casaco verde de fazenda, com gola e punhos de pêlo. Comprou-o, como o chapéu de abas que usava, numa viagem que fez com uma amiga a Paris, há alguns anos. Trazem-lhe, portanto, boas memórias.
Distraiu-se, entretanto, a observar o espaço em volta. Apreciou a larga mesa circular, com tampo branco a contrastar com o castanho muito escuro do remate e das cadeiras. Notou, depois, que havia, no parapeito da larga janela, onde se reflectiam as filas de luzes do tecto, uma taça de vidro e de pé alto, cheia de fruta. Pareceu-lhe ter sido apenas esquecida. Notou, também, que, à sua esquerda, um corrimão metálico levava ao piso inferior. «Talvez seja uma escada de acesso aos arrumos», pensou.

Ocorreu-lhe que poderia, como outras mulheres, forçar uma conversa com as pessoas da mesa ao lado, sob qualquer pretexto, mas, embora fosse afável, a timidez impedia-a de gestos ousados. Tinha amigos e família, é certo, mas, em casa, esperava-a apenas um gato, que, em tempos fora brincalhão e arisco, e que, com a idade, se tornara preguiçoso e bonacheirão.

domingo, novembro 27, 2016

Não soube da tarde



Não soube da tarde
senão pela mudez das pedras,
pelo êxtase iluminado das árvores.
Ébria de memórias,
errei por caminhos de pó,
por trilhos de quietação.
Bebi, em sorvos lentos,
o aroma agreste das estevas,
bebi-me inteira, de um trago,
sem que me conhecesse.
Reencontrei-me no canto das cigarras,
no restolhar animal e anónimo,
numa saudação longínqua de estrelas.
deep, Agosto de 2013

Entretanto, resolvi fazer uma gravação caseira, que podem encontrar aqui. Só uma brincadeira... 

Sensação de paz


Na sala, todos trabalham em silêncio. Através dos vidros simples das janelas corridas, ocultas por estores de lâminas, chega o som persistente da água que corre pelas caleiras. 
No exterior há um pátio, pequeno e quadrado, no centro do qual, a exceder o telhado, uma conífera, talvez um cedro, se exibe frondosa e digna na sua verticalidade. São agora mais intensos o verde e o perfume resinoso, depois da chuva, que continua a despenhar-se do céu, numa cadência regular, desde a tarde do dia anterior. 
O som da chuva não perturba o trabalho, parece, antes, ser música que embala e concentra. A temperatura do interior aprimora a sensação de paz.

sábado, novembro 26, 2016

O saber não ocupa lugar

(Imagem da net)

Fui aluna de Inglês do 5.º ao 12.º ano. Apesar disso, estou longe de ser uma expert, por isso, depois de muitos anos, decidi voltar a estudar a língua. 
Ainda que o curso, que tem a duração de cinquenta horas, me roube algum tempo do fim-de-semana ou da semana, é bom recordar aquilo que já estava esquecido, desfazer equívocos ou aprender coisas novas. Refrescante é igualmente o convívio com colegas e com a professora. Quebra a rotina e dispõe-nos bem.
Hoje de manhã, fizemos o primeiro teste, com questões elementares sobre tempos verbais, artigos e algum vocabulário. Penso que não me saí mal de todo.

Qualquer dia, regresso ao russo. 

sexta-feira, novembro 25, 2016

A noite



Ontem descobri este filme de animação. Gosto, ainda que prefira, da mesma autora, História Trágica com Final Feliz.