quinta-feira, setembro 29, 2016

Das nuvens pelo ar a branda guerra*


* Um verso do soneto "A fermosura desta fresca serra", de Camões

quarta-feira, setembro 28, 2016

Apontamentos fotográficos




Brincadeiras com os objectos, a fruta, a planta, a infusão para o licor de folha de figueira e, até, com o pó!

Talvez esteja saudosista

Há dias,quando tirei da estante um livro da colecção «Patricia», para emprestar à minha sobrinha, ocorreu-me o texto que agora recupero do baú.

Capa do único livro da colecção que comprei
Uma imagem igual a um dos meus posters

Recordo como fui uma adolescente típica, com dias marcados por paranóias e euforias, por sonhos e paixões assolapadas, por crises de ansiedade e episódios de anorexia, de que aparentemente saí ilesa - ou não!
Na altura, lia, sofregamente, os volumes da Patrícia e sonhava protagonizar, como ela, aventuras e desvendar casos misteriosos.
Lembro-me de, pelos 13 ou 14 anos, ter passado aproximadamente um mês e meio em Lisboa, repartindo os dias entre as casas de diferentes familiares. De lá, trouxe a aversão aos vestidinhos, que troquei por umas calças amarelo-canário, artilhadas com bolsos, molas e fechos por todo lado e uma t-shirt de riscas bem coloridas, a fazer conjunto - a propósito desta vestimenta, lembro-me de uma vizinha de uma das minhas tias ter exclamado, atónita, ao ver-me:"Ah! Mas ela veste-se como as meninas de cá!" Depreendo que a senhora deve ter confundido Trás-os-Montes com Marte!!!
Acompanhou-me igualmente, no regresso, uma "doença" que começara a desenhar-se antes, mas que ganhou confirmação na capital, influenciada por uma das minhas primas e pelas amigas que, na altura usavam roupa verde-alface e cor-de-laranja e, pelo menos uma delas, calçava umas sandálias Colibri, anunciadas em tudo o que era outdoor em Lisboa: a "Duran-mania". Nunca fui de arrancar cabelo ou de emitir guinchinhos histéricos - como as fãs dos Beatles -, mas lembro-me de comprar a Bravo, na altura em alemão, de que não sabia uma palavra, só porque saía uma minúscula fotografia dos Duran Duran, de copiar para um caderno as letras das canções destes e de outros ídolos e de ornamentar - para desgosto da minha mãe - as paredes do quarto com fotografias em poster dos "meninos". Ao contrário da maior parte das raparigas, não tinha como preferido o Simon ou o John, antes o Roger, o baterista, talvez por parecer mais discreto.
Muita coisa mudou desde a minha adolescência - inclusive os meus gostos musicais -, mas confesso-vos que, de vez em quando, me sabe bem ouvir isto, pelos velhos tempos!

terça-feira, setembro 27, 2016

Das memórias boas...


Resgato do baú um texto com alguns anos.

Assomo à varanda. Aqui é impossível não acreditarmos que a Terra é redonda. É difícil não nos sentirmos extasiados com tamanha beleza. O olhar, que, em dias claros, se perde pelos montes até ao planalto, embate agora numa cortina de água.

Num plano mais próximo, campos de verde novo alternam com terras recentemente lavradas.
Aproximo o olhar, que agora se fixa nos caminhos estreitos de terra batida, ladeados de muros de xisto que, como tentáculos, se estendem até às hortas, aos pomares, aos soutos, só depois aos olivais.
Sob a chuva miudinha, que se entranha no empedrado das ruas desertas (essas ruas que já foram de lama e de xisto e onde rolaram alegres carros feitos de tábuas e de rodas de charrua), nas árvores e nos telhados, e o fumo que se desprende das chaminés das poucas casas ainda habitadas, a aldeia é um ser melancólico e solitário, ofendido com a indiferença dos homens que se recolhem no calor das lareiras, no agasalho das casas. Também lhe viro as costas, quando um frio húmido me chega aos ossos. 
Sento-me no velho e pesado escano de madeira, em frente à lareira, onde pedaços de grossos troncos ardem. Memórias antigas teimam em roubar-me ao presente. O sabor inigualável da sopa de feijão vermelho que a tia cozinhava, à lareira, em panela de ferro. O aroma do café de mistura que se exalava do pote de barro preto. O tio que respondia em frases rimadas e que usava sempre colete, de cujo bolso pendia a corrente de um relógio. O rádio Westinghouse do tio que ele guardava tão religiosamente que só o víamos - e ouvíamos - quando coincidia a nossa visita com a hora do noticiário ou do terço. Os almanaques que, com o tempo, passámos a conhecer de cor. As conversas demoradas à lareira.
As histórias de tempos difíceis, de pobreza, de partilha e de bondade, apesar de tudo...

domingo, setembro 25, 2016

Percorrer velhos caminhos









As fotos são uma pequena amostra da caminhada que fiz ontem. 
Além dos adultos, entre os quais se encontrava apenas uma pessoa que conhecia, acompanhou-me a minha sobrinha mais velha (que se vê junto a um moinho a fotografar uma cascata). Fizemos o caminho que liga duas aldeias. 
Dizem as pessoas mais velhas que, em tempos, foram vários os moinhos naquela linha de água. Hoje restam dois ainda de pé.

Há cidades

Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.
Há cidades cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.
E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.

Sophia de M. B. Andresen

A noite deu em chuvosa


A chuva chegou quase sem aviso. Vesti um agasalho e sentei-me na varanda a ouvi-la e a vê-la cair. No ouvido tinha ainda "A Perfect Day", do Lou Reed, que um vizinho de bom gosto "oferecera" umas horas antes.