sábado, março 25, 2017

Mais tarde será tarde e já é tarde

Homenagem a Ricardo Reis

I

Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.


Sophia de M. B. Andresen, Poemas sobre Pessoa

Era bom, era

Dizem-lhe que está igual. Dizem-lhe que os anos não passam por ela. O espelho costuma dizer-lhe o contrário. Os vincos multiplicam-se no seu rosto. A um ritmo pouco acelerado, é certo. Os cabelos brancos começam a surgir, espetados, por entre a cabeleira castanha. As roupas, um pouco mais largas, afiançam-lhe que as pessoas mentem. Porque são simpáticas - ou querem parecê-lo. Porque não encontram outras palavras para gastar os minutos ou segundos que distam do encontro à despedida. Ou talvez as pessoas, essas que lhe dizem, com um sorriso, aparentemente franco, que está igual, tenham uma visão distorcida pelo tempo que passou e, por isso, já não se lembrem de como ela era há anos.
É certo, porém, que há dias, como hoje, em que se sente mais jovem, em que esquece a idade e os estragos que esta e a falta de cuidado foram operando em si. Talvez seja dos ténis que há dias se ofereceu e que usa até no local de trabalho, ou do anoraque com capuz debruado a pelo, igual ao de algumas adolescentes que conhece. Ou talvez seja só uma vontade grande de não envelhecer que os outros, os que lhe dirigem comentários elogiosos, vêem nela.

Duplo império


Ponte sobre o rio Douro, em Zamora
Atravesso as pontes mas
(o que é incompreensível)
não atravesso os rios, 
preso como uma seta
nos efeitos precários da vontade.
Apenas tenho esta contemplação
das copas das árvores
e dos seus prenúncios celestes,
mas não chego a desfazer
as flores brancas e amarelas
que se desprendem.
As estações não se conhecem,
como lhes fora ordenado,
mas tecem o duplo império
do amor e da obscuridade.

Pedro Mexia

sexta-feira, março 24, 2017

Perguntem a Sarah Gross


é o título da obra em processo de degustação. Já me tinham chegado, através da televisão, de blogues e de artigos de jornais, ecos deste romance de João Pinto Coelho, um lisboeta nascido em Londres, que vive há aproximadamente 20 anos em Trás-os-Montes. 
Há dias, assisti a uma apresentação de Perguntem a Sarah Gross pela voz do próprio autor, que falou do seu interesse antigo pelo Holocausto e do trabalho de pesquisa que desenvolveu até chegar à escrita. Salientou o precioso contributo de um grupo de alunos de uma escola de Valpaços, com os quais levou a cabo um trabalho de projecto, que implicou muita pesquisa, correspondência assídua com alunos polacos e que teve um ponto alto num encontro entre portugueses e polacos, na Polónia.
A acção do livro decorre, em capítulos alternados, nos Estados Unidos, no fim dos anos 60, e  em Oshpitzin, nome em iídiche para Oświęcim’s, a cidade onde nascerá, com a ocupação nazi, Auschwitz, no período entre as duas grandes guerras.
Ainda que a minha leitura vá só a meio, posso dizer-vos que estou a gostar. Pela trama, pela construção de personagens, pela linguagem, pelo que tem de cinematográfico e informativo.
Quando terminar, dar-vos-ei conta da impressão final. 

quarta-feira, março 22, 2017

terça-feira, março 21, 2017

Celebrar a árvore e a poesia


Mogadouro

Sou como folhas de árvore — reparo.
Numerosas, presas ao ramo por pecíolos tenazes,
contudo complacentes com o ar que passa, 
e por isso frívolas, mostrando
alternadamente as duas faces.

Assim múltiplo e trémulo sou eu. 
Apenas um pouco menos perecível,
julgo. E a figueira a que pertenço
talvez um pouco mais durável
que as de verdade.
Mas isso pode ser impressão minha.

A.M. Pires Cabral

segunda-feira, março 20, 2017

Sobre nuvens e sonhos

Imagem de Fernanda Furtado

Vejo que cresceste.
Percebo que são, agora,
maiores os teus braços,
as tuas pernas, todo o teu corpo.

Mas, nos teus olhos,
vivos na sua timidez,
assoma ainda a candura
da menina que foste.

Dizes-me que estás a caminho
de seres mulher…
E eu adivinho cavalos no teu peito,
ora dóceis, ora indómitos,
inquietos na ânsia

de conquistar nuvens e sonhos.

Tosco devaneio, escrito para celebrar os 18 anos de uma amiga que vi nascer